Erros do escritor iniciante

Um dos objetos mais aterrorizantes para um escritor iniciante é a folha em branco. Começar a escrever uma história é uma das fases mais difícil para aqueles que iniciam sua carreira literária.

Os motivos variam de escritor para escritor, mas geralmente se resumem a uma série de comportamentos comuns aos iniciantes. Tais comportamentos “travam” o fluxo da escrita e têm uma presença mais marcante nos escritores autodidatas, isto é, naqueles que começam a escrever sem a orientação de um escritor mais experiente.

Hoje iremos analisar os comportamentos que perturbam nossa escrita antes mesmo de começarmos a colocar as palavras no papel.

Um mundo de possibilidades

O papel em branco é a sopa primordial literária, os segundos anteriores ao big-bang de um universo ficcional. Não há personagens, nem tempo, nem cenário, nem narrador e, mesmo que algumas ideias mais ou menos definidas já estejam flutuando em nossas mentes, não há história: um verdadeiro “não ser” literário.

Justamente por não existir, a história a ser criada pode ser qualquer uma. Ela pode ter infinitos começos diferentes, tomar infinitos rumos e serem concluídas de infinitas maneiras. Diante deste mundo de possibilidades, o jovem escritor encontra-se desnorteado. Sua escrita não flui porque ele não sabe o que escrever.

A literatura, como qualquer outra forma de arte, é uma forma de comunicação. Toda a obra artística emerge de um mesmo embrião: a mensagem.

Todo artista, em sua essência, é um ser humano buscando expressar algo para outro ser humano. Os diversos tipos de arte diferem, assim, quanto ao método utilizado para se realiza este ato, mas estes são, primordialmente, fruto do mesmo impulso criativo. É sobre esse núcleo semiótico que o artista edifica todos os outros substratos de sua obra.

Ayn Rand, em seu A Arte da Ficção lecionava que “o propósito de toda arte é a objetificação de valores. O motivo fundamental de um escritor – e, por implicação, do ato da escrita, esteja ele consciente ou não – é objetificar seus valores, suas opiniões sobre o que é importante na vida”.

Em si, a mensagem é determinada pelo artista: um sentimento, uma ideia, uma proposta experimental, uma forma, um paradigma. Qualquer que seja a mensagem, a criação artística é meio através do qual os artistas difundem-na.

O primeiro vício do escritor iniciante é não determinar a mensagem a ser transmitida, isto é, escrever por escrever. Não que experimentar com a palavra não seja interessante (e necessário, de tempos em tempos), mas sem uma motivação que a justifique, sem um objetivo, a obra literária não possuirá fundamento e será trabalhosa de ser realizada.

Para evitar este comportamento, o escritor deve, ao idealizar uma peça, realizá-la com um objetivo.

Em seu ensaio, Notas sobre a escrita de Ficção Sobrenatural, o escritor H.P. Lovercraft, um dos mestres da literatura fantástica e de terror afirmou que

 “Cada um dos meus contos têm um enredo diferente. Uma vez ou outra, eu transcrevi literalmente um sonho, mas normalmente começo com um estado de espírito ou uma idéia ou imagem a qual eu desejo expressar, e a rumino na minha mente até encontrar um bom modo de incorporá-lo dentro de uma seqüencia dramática capaz de ser escrita em termos concretos”.

Medo

Existem muitos medos que espreitam na mente dos escritores. Talvez as origens mais comuns deste medos são as críticas e o orgulho demasiado.

Este último remete ao receio que alguns escritores iniciantes têm de verem suas obras serem meras cópias de obras mais famosas ou tradicionais. Demonstra-se às vezes como um verdadeiro desejo do artista de realiza uma obra prima a cada trabalho realizado, e como tal indubitavelmente diferente (e melhor!) de qualquer outra obra já criada. Outras vezes mostra-se como temor de rejeição, pois o escritor pensa que, repetindo clichês, não chamará a atenção do público e das editoras.

Este medo é perigoso na medida em que cega o escritor iniciante para a sua própria inexperiência, inexoravelmente o prendendo a esta condição. A prática da escrita inicia-se como qualquer prática técnica: repetindo-se as convênções vigentes. Jovens advogados escrevem petições levando em conta modelo dos mais antigos; arquitetos começam com projetos simples ou até mesmo parte de projetos maiores; pintores estudam e praticam técnicas que remetem ao Renascimento. Repetir o básico permite criar os fundamentos necessários para o escritor criar seu estilo.

Já o medo de críticas, muito comum nas pessoas tímidas, muitas vezes resume-se ao temor não ser reconhecido pela comunidade. Para o ser humano, ser social por excelência, é um fator muito importante ser aceito e não ser reconhecido em seu meio é uma situação indesejada. Este temor não é de todo irracional, mas é irrelevante no momento da criação literária. Se cada obra é fruto da visão única do artista sobre o mundo, o mais importante no processo de criação é a mensagem que o autor quer passar e como ela será transmitida.

Escrever sob o medo do que os outros vão dizer é limitar a escrita e limitar a si mesmo e sempre se deixar levar pelas opiniões alheias é negar a si próprio. Isto, porém, não pode ser levado ao extremo, negando-se qualquer diálogo entre autor e leitor, o que acarreta em subdesenvolvimento das capacidades do escritor.

Em suma, críticas são parte importante na arte, e têm um papel muito bem definido em relação à criação artística; devem ser sempre, portanto, levadas em conta quando aperfeiçoam o processo criativo, e não quando o limitam.

Perfeccionismo

Longe de ser plenamente um vício, o perfeccionismo, pelo menos na fase inicial da escrita, é uma das piores atitudes que um escritor iniciante pode tomar. Isto porque, no momento em que as ideias estão borbulhando na mente, parar para corrigir a ortografia ou a concordância verbal pode interromper completamente o processo de criação. A mente deixa de lado o mais importante para se preocupar com minúcias do idioma.

O escritor iniciante deve ter em mente que o texto não precisa ficar pronto na primeira tentativa. Ele pode ser trabalhado, melhorado: muitos termos podem ser cortados; parágrafos inteiros reescritos para atender aos objetivos da obra. É para isso que serve a revisão.

Ser escritor é ser um artesão de textos. Com o tempo e experiência, o processo se torna mais natural e cada vez mais rápido o texto é escrito.

Evitando estes três comportamentos, os que agora se iniciam na escrita tornam-se mais produtivos e eficientes.

Podemos resumir as recomendações aqui apresentadas em três tópicos:

1 – Tenha um objetivo claro, uma mensagem a ser transmitida. Sem isso a obra fica vazia.

2 – Não tenha medo dos outros. O medo paralisa, e escritor paralisado não produz.

3 – Não se preocupe com detalhes no início. Escreva, pratique, revise.


Share This:

1 Comment Erros do escritor iniciante

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *